quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

SEM RAZÃO......




O mar, a mais ininteligível das existências não humanas.
E aqui está a mulher, de pé na praia, o mais ininteligível dos seres vivos.
Como o ser humano fez um dia uma pergunta sobre si mesmo,
tornou-se o mais ininteligível dos seres vivos.

Ela e o mar.
Só poderia haver um encontro de seus mistérios se um se entregasse ao outro:
a entrega de dois mundos incognoscíveis feita com a confiança com que se entregariam duas compreensões.

Ela olha o mar, é o que pode fazer.

Ele só lhe é delimitado pela linha do horizonte, isto é, pela sua incapacidade humana de ver a curvatura da terra.
São seis horas da manhã.
Só um cão livre hesita na praia, um cão negro.
Por que é que um cão é tão livre? Porque ele é um mistério vivo que não se indaga.
A mulher hesita porque vai entrar.
Seu corpo se consola com sua própria exigüidade em relação à vastidão do mar porque é a exigüidade do corpo que o permite manter-se quente e é essa exigüidade que a torna pobre e livre gente, com sua parte de liberdade de cão nas areias.
Esse corpo entrará no ilimitado frio que sem raiva ruge no silêncio das seis horas.

A mulher não está sabendo, mas está cumprindo uma coragem.
Com a praia vazia nessa hora da manhã, ela não tem o exemplo de outros humanos que transformam a entrada no mar em simples jogo leviano de viver.

Ela está sozinha.
O mar não é sozinho porque é salgado e grande, e isso é uma realização.
Nessa hora ela se conhece menos ainda do que conhece o mar.
Sua coragem é a de, não se conhecendo, no entanto, prosseguir.
É fatal não se conhecer, e não se conhecer exige coragem.
Vai entrando.
A água salgada é de um frio que lhe arrepia em ritual as pernas.

Mas uma alegria fatal – a alegria é uma fatalidade – já a tomou, embora nem lhe ocorra sorrir.
Pelo contrário, está muito séria.
O cheiro é de uma maresia tonteante que a desperta de seus mais adormecidos sonos seculares.
E agora ela está alerta, mesmo sem pensar.

A mulher é agora uma compacta e uma leve e uma aguda – e abre caminho na gelidez que, líquida, se opõe a ela, e no entanto a deixa entrar, como no amor em que oposição pode ser um pedido.
O caminho lento aumenta sua coragem secreta.
E de repente ela se deixa cobrir pela primeira onda.
O sal, o iodo, tudo líquido, deixam-na por uns instantes cega, toda escorrendo – espantada de pé, fertilizada.
Agora o frio se transforma em frígido.
Avançando ela abre o mar pelo meio.
Já não precisa da coragem, agora, já é antiga no ritual.
Abaixa a cabeça dentro do brilho do mar, e retira uma cabeleira que sai escorrendo toda sobre os olhos salgados que ardem.
Brinca com a mão na água, pausada, os cabelos ao sol, quase imediatamente já estão endurecendo de sal.
Com a concha das mãos faz o que sempre fez no mar, e com a altivez dos que nunca darão explicação nem a eles mesmos:
com a concha das mãos cheias de água, bebe em goles grandes, bons.
E era isso que lhe estava faltando: o mar por dentro como o líquido espesso de um homem. Agora ela está toda igual a si mesma.
A garganta alimentada se constringe pelo sal, os olhos avermelham-se pelo sal secado pelo sol, as ondas suaves lhe batem e voltam pois ela é um anteparo compacto.

Mergulha de novo, de novo bebe, mais água, agora sem sofreguidão pois não precisa mais.
Ela é a amante que sabe que terá tudo de novo.
O sol se abre mais e arrepia-a ao secá-la, e ela mergulha de novo; está cada vez menos sôfrega e menos aguda.
Agora sabe o que quer.
Quer ficar de pé parada no mar.
Assim fica, pois.

Como contra os costados de um navio, a água bate, volta, bate.
A mulher não recebe transmissões.
Não precisa de comunicação.
Depois caminha dentro da água de volta à praia.
Não está caminhando sobre as águas – ah nunca faria isso depois que há milênios já andaram sobre as águas – mas ninguém lhe tira isso: caminhar dentro das águas.

Às vezes o mar lhe opõe resistência puxando-a com força para trás, mas então a proa da mulher avança um pouco mais dura e áspera.
E agora pisa na areia.
Sabe que está brilhando de água, e sal e sol.
Mesmo que o esqueça daqui a uns minutos, nunca poderá perder tudo isso.
E sabe de algum modo obscuro que seus cabelos são de náufrago.
Porque sabe – sabe que fez um perigo.
Um perigo tão antigo quanto o ser humano.


Clarice Lispector



Pra mim é mais do que uma prece...
Nào dá pra explicar o quão o mar é grande dentro de mim
Pleno na sua altivez...
E ele é ... sem querer sê-lo,
Ë mais do que agradar aos olhos,
Para aqueles que não sabem,
O mar preenche a alma...
E pra falar a verdade,
 não importa saber o porque:
Simplesmente SINTA...
E de quebra ,
 sempre tem um céu...
mais do que azul...
 
 
 
Na têmpora rolando :
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2 comentários:

Orvalho do Céu disse...

Olá, querida Ale
O poema é lindíssimo com metáforas surpreendentes...
A sua relação do mar e o céu... Hum!!! Perfeita também!!!
Bjm de paz e orante

meus instantes e momentos disse...

que bom voltar aqui...