terça-feira, 18 de maio de 2010

PURO PLÁGIO....




Toda noite um carro grita. É um gemido insistente, chamando pelo dono. Começa quase sempre às 5 da manhã. Dispara o alarme, e o alarme dispara minha imaginação. Muitas vezes já imaginei tiros de bazuca, que acertam em cheio a buzina do carro — só a buzina — e devolvem o silêncio ao mundo do bairro. Outras vezes imagino alguém chegando na calçada, ainda de pijama de flanela, com um machado na mão. O benfeitor acerta o capô muitas vezes, até a buzina ir perdendo o tom, desafinando, e finalmente para com uma derradeira machadada. Imagino então vizinhos aplaudindo nas janelas, e o homem, suado (o pijama é de flanela, lembra?) agradece com um aceno de lenhador.

Mas o carro não se comove com meus pensamentos. Segue buzinando, apitando, silvando. O escândalo é sem fundamento: o carro nunca é roubado, infelizmente. Está lá toda santa madrugada. Ele, sim, é o ladrão do nosso sono. E nós, assaltados, temos um alarme silencioso ainda por cima: simplesmente perdemos o sono. Posso dizer que todo dia, às 5h, acordo alarmado.

Há outro colega do carro, que aparece de vez em quando. Seu horário é diferente: perto da meia noite, uma da manhã. E é mais tagarela, sua rotina é falar: “Atenção! Este veículo está sendo roubado! (sirenes) Atenção, este veículo está sendo roubado!”. Dá vontade de abrir a janela e esclarecer: “Roubado coisa nenhuma, #*%$!#@! Tu tá aí, gritando!”

Quando saio de casa tento reconhecer a dupla dentre os carros estacionados nas calçadas ao redor. Mas, à luz do dia, são todos inocentes, como crianças dormindo no conforto do asfalto. Por vezes levanto a mão bruscamente ao passar por alguns, a ver se se assustam e entregam o jogo no escarcéu barulhento que conheço tão bem. Que nada. Devem estar cansados, passaram a noite em claro, berrando. Precisam do sono reparador até que alguém gire a chave e eles partam em silêncio, esbanjando uma engenharia perfeita, de parafusos apertados e justinhos. Sem grilos ou ruídos.

Ironia das ironias: o grilo, que tanto embala as estrelas tranquilas, vira um barulho chato nos carros. A noite da cidade é feita de breu e de asfalto — nessa noite o grilo não manda.

(André Laurentino)


PS: Agora toda terça-feira tentarei irei postar algum texto interessante, de alguém que gosto e que por si só não necessita de nenhum comentário meu.

5 comentários:

Leo disse...

Começou a terça com chave de ouro, adorei.

te fiz uma indicação lá no meu blog. :)

um beijão!

Olavo disse...

Perfeito..o que comentar?
Beijos

[ rod ] ® disse...

Quem sabe um dia eu não me atrevo a ter-me aqui...r.s bjs moça e obrigado!

Giovanna Lundgren disse...

Adorei seu blog, vi que vc tava seguindo meu blogger e tou seguindo o seu tbm. beijos.

san disse...

Se me arrumarem o machado, podem contar comigo pra sentar machadada no capô até o barulho parar.
O-D-E-I-O esse tipo de coisa: alarme que dispara seguidamente e o dono tudo bem, cachorro que late sem parar e o dono nem tchum, som alto a ponto de te irritar dentro de casa e o dono pouco se lixando.

Essas coisas me deixam totalmente Charles Bronson in Death Wish.